Revista transitória de idas a amores impossíveis e retornos a sonhos moldados. Uma árdua toca de coelho onde as quimeras se perdem e se reinventam.
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Cuidado: você está prestes a se conectar profundamente

Parabéns. Se você chegou até aqui, é porque provavelmente está a alguns passos de cometer um erro gravíssimo na vida moderna: criar um vínculo real com outro ser humano. Sim, você leu certo. Em tempos de conexões instantâneas, respostas rápidas e sentimentos que duram menos que a bateria do celular, conectar-se profundamente com alguém se tornou quase um ato subversivo. Hoje em dia nos comunicamos o tempo inteiro, mas raramente nos relacionamos de verdade. Temos conversas intermináveis, mas poucos diálogos. Temos listas enormes de contatos, mas um silêncio constrangedor quando precisamos de alguém de fato. O curioso é que nunca estivemos tão “conectados” e, ao mesmo tempo, tão incapazes de sustentar uma ligação que sobreviva ao primeiro sinal de desconforto. As relações atuais parecem funcionar como testes gratuitos de aplicativos: começam intensas, prometem mundos e fundos, mas expiram antes que você entenda o que realmente aconteceu.E é aqui que entra um fenômeno curioso e perigosamente sedutor chamado Love Bombing. O nome parece romântico, chega a ser poético, como se alguém estivesse simplesmente explodindo de amor. Na prática, porém, é algo bem menos bonito.

Embora usado para fins positivos e negativos, o bombardeio de amor é identificado como uma possível parte de um ciclo de abuso.

O love bombing acontece quando uma pessoa despeja uma quantidade absurda de atenção, elogios, declarações e promessas logo no início de uma relação. Em poucos dias você já é “a pessoa mais especial do mundo”, “o amor da vida”, “alguém diferente de todos que já apareceu”. Parece intenso, parece mágico — e, convenhamos, o ego humano adora esse tipo de espetáculo.Mas existe um pequeno detalhe para ser pensado: intensidade não é profundidade.O problema do love bombing é que ele cria uma ilusão de intimidade que não foi construída. É como plantar uma horta em cima de um terreno que nunca foi preparado. Tudo acontece rápido demais: sentimentos gigantescos, expectativas enormes, planos grandiosos. E quando a realidade finalmente aparece — como ela sempre aparece — essa horta simplesmente apodrece.De repente, aquela pessoa que parecia devotar a própria existência a você desaparece, esfria ou se torna indiferente. Não porque o amor acabou, mas porque talvez ele nunca tenha realmente existido.O love bombing não é apenas sobre excesso de carinho. Muitas vezes ele funciona como uma forma de controle emocional: primeiro você é colocado no pedestal mais alto possível, depois passa o resto do tempo tentando entender por que caiu dele.E no meio disso tudo está um fenômeno ainda mais curioso: nossa incapacidade coletiva de lidar com relações que exigem tempo, conflito, paciência e maturidade. Relacionamentos duradouros são lentos. São construídos em conversas difíceis, em silêncios compartilhados, em momentos que não rendem boas fotos nem boas legendas.Mas o mundo atual tem alergia à lentidão. Queremos intensidade imediata, química instantânea e uma história pronta antes mesmo de conhecer o outro. E vamos falar um pouco sobre a amizade? Para começar essa reflexão eu gostaria de fazer uma pergunta:E quanto aos seus amigos? Você os conhece?Não estou perguntando se você sabe o nome de usuário deles, nem se já curtiu algumas fotos ou respondeu “kkkk” em um grupo qualquer às duas da manhã. Isso não conta, tá certo?Estou perguntando se você conhece essas pessoas.Você sabe do que eles têm medo quando ficam sozinhos?Sabe o que os mantém acordados durante a madrugada?Sabe quais são as pequenas tristezas que eles fingem não ter para não incomodar ninguém?Ou a sua amizade se resume a um ritual muito moderno: reagir com um coração, mandar um “vamos marcar”, e desaparecer elegantemente por mais três meses?Hoje em dia, amizade virou uma espécie de “contrato social preguiçoso. Você não precisa realmente se importar com ninguém — basta parecer minimamente presente de vez em quando. Um emoji resolve, um meme substitui a conversa, e um “tô aqui se precisar” já cumpre toda a obrigação moral do século.E assim seguimos: cercados de “amigos”, grupos de conversa, notificações piscando, mensagens acumuladas… e uma estranha incapacidade de sentar diante de alguém e simplesmente conhecê-lo de verdade.Porque conhecer alguém exige tempo.Exige silêncio.Exige ouvir coisas que não são engraçadas nem interessantes o suficiente para virar postagem.E isso, convenhamos, dá trabalho demais para uma geração que mal consegue terminar um vídeo de trinta segundos sem pular para o próximo.Então voltamos à pergunta — simples, quase inconveniente:Você realmente conhece os seus amigos?Ou eles são apenas mais alguns rostos educadamente tolerados na grande vitrine social que você chama de vida?

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